O ano da “consolidificação” da intermediação de crédito
06.01.2026
O regime jurídico da Intermediação de Crédito entrou em vigor a 1 de janeiro de 2018. Desde então, o sector registou um crescimento rápido, afirmando-se como um elo relevante entre famílias e instituições financeiras. Após oito anos, o papel dos intermediários de crédito é amplamente reconhecido pelas famílias portuguesas.
O início de cada novo ano é um momento de definição de objetivos e planos. Equipas, formação, marketing e tecnologia integram a agenda habitual. Contudo, mais do que repetir fórmulas conhecidas, importa questionar modelos de negócio e a sustentabilidade das empresas do sector.
Muitos intermediários continuam dependentes de dois produtos de crédito: habitação e consumo. No entanto, a experiência demonstra que a concentração aumenta a vulnerabilidade a ciclos económicos, alterações regulatórias e mudanças no comportamento dos consumidores. Consolidar implica, inevitavelmente, diversificar.
Nesta “Economia do Ano” com inflação estabilizada e desemprego reduzido, as medidas públicas estimulam o sector e a confiança dos consumidores recuperou. O crescimento económico é superior à média da Zona Euro. Este cenário deve ser aproveitado para crescer em volume, mas também para diferenciar a proposta de valor da intermediação de crédito.
As oportunidades não se esgotam no segmento das famílias. O mercado empresarial continua subaproveitado e carece de apoio técnico especializado. Reforçar o papel do intermediário junto das empresas é o caminho natural.
Num mercado marcado pelo desequilíbrio entre a oferta e procura, o crédito à habitação assume um papel determinante na compra de casa. A pressão para encontrar soluções de financiamento que viabilizem negócios urgentes aumenta a responsabilidade de todos. Avaliar corretamente a capacidade financeira dos clientes e garantir decisões informadas, conscientes e sustentáveis é imperativo.
Os intermediários desempenham uma função relevante na contratação responsável de crédito. Explicar riscos, clarificar opções e antecipar cenários é obrigatório. Num contexto complexo, a educação do consumidor é um dever ético com impacto direto na sustentabilidade futura do mercado.
A relevância crescente do sector implicará, de forma natural, um reforço da supervisão. Esta evolução deve ser encarada de forma positiva, exigindo maior capacitação das equipas e adoção de sistemas de gestão robustos.
A digitalização continuará a transformar a atividade, impondo plataformas integradas que agilizem processos, garantam transparência e melhorem a experiência do cliente. Neste negócio, o sucesso depende de profissionais qualificados, apoiados por tecnologia eficiente.
A consolidação desta atividade exige, igualmente, investimento contínuo na formação das equipas. A atualização permanente de competências tornou-se um fator decisivo de credibilidade, diferenciação e competitividade. Num sector cada vez mais competitivo, a profissionalização será um dos principais critérios de sobrevivência.
À medida que o sector amadurece, a construção de marcas fortes com reputação sólida torna-se determinante, sendo que o futuro passará por um modelo menos transacional e mais orientado para o acompanhamento financeiro de longo prazo.
Neste enquadramento, 2026 poderá afirmar-se como o verdadeiro ano da “consolidificação” da intermediação de crédito em Portugal. A capacidade de consolidar o que foi construído, aliada à coragem para diversificar, será decisiva para o sucesso futuro de qualquer intermediário de crédito a atuar no mercado.
Artigo publicado no Jornal Eco